Por Juliana Vicentini
A escultura reinterpretou um clássico da arte brasileira para representar a capacidade do cluster do laboratório.
Uma das maiores infraestruturas computacionais dedicadas à pesquisa em IA instalada em universidades da América Latina, está no Recod.ai. O cluster localizado no Instituto de Computação da Unicamp, foi homenageado com uma obra de arte que faz referência a sua capacidade de armazenamento e processamento de dados.
A escultura com pés desproporcionais, corpo curvado e cabeça pequena denuncia a inspiração: o Abaporu de Tarsila do Amaral. O personagem que marcou o modernismo brasileiro em 1928, ressurge no século XXI com uma releitura. O seu significado como devorador de homens é atualizado e dá lugar ao devorador de dados, metáfora que representa o cluster do laboratório.
Mantendo as proporções do personagem original, a escultura também incorpora elementos da identidade do supercomputador do Recod.ai. As linhas da superfície remetem aos circuitos eletrônicos e aos fluxos contínuos de dados que são armazenados, processados e utilizados em pesquisas e projetos de inovação em diversas áreas.
A transformação de um dos maiores símbolos da arte brasileira em uma obra sobre IA foi feita por Marcela Ruocco. Psicóloga de formação e ceramista por paixão, ela explicou que “uma coisa traz aprendizado para a outra”. A artista compartilhou que o olhar sensível para o comportamento humano influencia seu processo criativo, enquanto a prática artística amplia sua atuação clínica.

O Abaporu Digital surgiu a partir de um encontro entre uma criação prévia e a identidade do cluster. “Eu já tinha feito um Abaporu. Passou um certo tempo, o Recod.ai inaugurou a infraestrutura computacional que foi batizada com esse nome, fazendo uma referência como devorador de dados, o que fez todo sentido. Então, eu fiz essa surpresa de transformar esse conceito em arte”.
A escultura busca tornar visível algo que normalmente existe apenas em algoritmos e servidores, além de dialogar com o campo científico. “Hoje está tudo muito no virtual. A escultura traz esse equilíbrio do concreto, do manual, da beleza da arte, também traz o rigor técnico da escultura, porque ela não é algo feito de forma displicente, o que conversa com o rigor técnico que existe na ciência”, refletiu Marcela.
A artista ressaltou que a obra não pretende oferecer interpretação única. “Para o pessoal do laboratório, ela pode remeter muito às estruturas computacionais. Para uma outra pessoa que nem é da área, pode remeter a coisas completamente diferentes”. Para ela, essa liberdade é uma das principais forças da arte: transformar a complexidade do processamento de dados em experiências visuais, capazes de despertar diferentes leituras.
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Material produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil (Processo nº 2025/26523-7), vinculado ao Projeto Horus do Recod.ai (Processo nº 23/12865-8).