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Pesquisa brasileira sobre IA e proteção infantil recebe prêmio internacional

Por Juliana Vicentini

Base de dados inovadora preserva a privacidade das vítimas e viabiliza o desenvolvimento de sistemas de IA para auxiliar na detecção de padrões de abuso sexual infantil.

Pesquisa desenvolvida por cientistas brasileiros do Recod.ai, do Instituto de Computação (IC) da Unicamp, recebeu o prêmio de melhor artigo no Workshop on Computer Vision for Children (CV4CHL), realizado durante a 43ª edição da Conference on Computer Vision and Pattern Recognition (CVPR) nos EUA neste ano. Esta é a principal conferência internacional da área de visão computacional e IA.

O CV4CHL reúne pesquisas sobre aplicações de visão computacional voltadas para proteção de crianças, tema ainda pouco explorado na área. O objetivo é estimular soluções capazes de enfrentar problemas reais, como segurança digital, educação, saúde e proteção infantojuvenil. Foi nesse contexto que o artigo “CSA-Graphs: A Privacy-Preserving Structural Dataset for Child Sexual Abuse Research” foi premiado, representado na ocasião por Carlos Caetano, pesquisador do Projeto Araceli (Recod.ai) e primeiro autor do trabalho.

Três pessoas estão na foto. Ao centro está Carlos Caetano, pesquisador do Projeto Araceli, recebendo o prêmio, ladeado por um homem e uma mulher que parecem ser da organização do evento
Carlos Caetano ao centro recebendo certificado de melhor artigo no CV4CHL (Imagem: divulgação).

O estudo propõe o desenvolvimento de sistemas de IA para detectar padrões associados ao abuso sexual infantil sem utilizar imagens ilegais ou sensíveis, ampliando assim as possibilidades de pesquisa em um domínio altamente restrito.

A pesquisa apresenta uma metodologia que transforma imagens em grafos, ou seja, representações abstratas de pessoas, poses, objetos, cenas e relações entre esses elementos. A partir dessas estruturas, é possível identificar padrões que podem indicar situações relacionadas ao abuso sexual infantil.

Os algoritmos são executados por peritos especializados e em ambientes restritos, que compartilham apenas dados derivados para pesquisa. Dessa forma, preserva-se a privacidade das vítimas e evita-se a exposição de cientistas a materiais ilegais. A abordagem também permite que pesquisadores desenvolvam e avaliem novas técnicas de IA, conciliando avanços científicos com requisitos éticos, legais e de proteção de direitos humanos.

Sandra Avila, professora do IC e coordenadora do Projeto Araceli, que desenvolve ferramentas de IA para auxiliar no combate à exploração e ao abuso sexual infantil na internet, destacou a relevância da conquista. “Antes mesmo do prêmio, já ficamos super felizes de o artigo ter sido o único aceito para apresentação oral”.

“Workshops no CVPR têm bastante visibilidade, que é um dos objetivos de publicar um artigo científico, torná-lo visível, divulgar a ciência. No caso deste artigo, o objetivo foi mostrar que é possível fazer ciência aberta e comparável nesse domínio restrito (classificação Child Sexual Abuse Imagery – CSAI), substituindo imagens originais por representações estruturais que preservam a privacidade, mas que ainda carregam informações suficientes para classificação. Esperamos que o prêmio possa ampliar esse objetivo”, diz Avila.

“A repercussão foi muito positiva. Como fui o último a apresentar, infelizmente não houve tempo para perguntas ao final da sessão, mas muitos fotografaram nosso QR da apresentação para acesso à base de dados, o que demonstrou interesse no recurso disponibilizado”, comentou Caetano.

A receptividade do público à pesquisa não se limitou à apresentação e gerou oportunidade de colaborações futuras. “Após o encerramento do workshop, alguns conversaram comigo para parabenizar o trabalho e destacar a importância de existirem pesquisas voltadas para tema tão sensível e relevante. O reconhecimento também resultou no convite para participar da organização da terceira edição do CV4CHL”, disse o pesquisador.

A premiação destaca o potencial da solução para enfrentar um dos principais desafios da área: conciliar avanços tecnológicos com proteção de vítimas e cumprimento de normas éticas em um cenário de aumento exponencial do abuso sexual infantil. Essa visibilidade pode ampliar as possibilidades de colaboração e pode acelerar o desenvolvimento de ferramentas para apoiar a identificação e investigação desse tipo de crime.

A pesquisa foi desenvolvida a partir de parcerias entre Unicamp, Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto Federal de Minas Gerais e University of Sheffield. Ela conta com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP-2023/12086-9). A conquista é resultado de um trabalho em equipe: Carlos Caetano, Camila Laranjeira, Clara Ernesto, Artur Barros, João Macedo, Leo S. F. Ribeiro, Jefersson A. dos Santos e Sandra Avila.

Para saber mais, acesse:

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Material produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil (Processo nº 2025/26523-7), vinculado ao Projeto Horus do Recod.ai (Processo nº 23/12865-8).