Por Juliana Vicentini
Pesquisadores e peritos desenvolveram modelo computacional capaz de identificar elementos que indicam situações compatíveis com a violência, sem o uso de material ilegal
O 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Ele foi instituído pela Lei nº 9.970/2000 devido ao estupro e assassinato de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, uma menina de oito anos, descreve a Defensoria Pública. O crime ocorreu em 1973 e permaneceu impune, escancarando falhas do sistema de justiça e proteção à infância e à adolescência. Esse marco visa mobilizar a sociedade sobre o problema, incentivar denúncias e promover políticas públicas de defesa à essa população.
A violência que motivou a criação da data tem sido amplificada por canais digitais. No Brasil, 3 milhões de vítimas entre 12 e 17 anos relataram que a maioria dos crimes aconteceu no Instagram, WhatsApp e plataformas de jogos online, segundo a UNICEF. No âmbito mundial, o CyberTipline, sistema estadunidense de denúncias, recebeu mais de 61,8 milhões de imagens e vídeos suspeitos desses crimes, de acordo com levantamento da organização Missing Kids.

O conjunto de dados CSA-Graphs foi desenvolvido para auxiliar na investigação deste problema. Ele foi abordado na reportagem “IA identifica padrões de abuso sexual de crianças e adolescentes sem acessar conteúdos explícitos”, publicada na Revista Comciência. A inovação surgiu a partir de uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas, a Polícia Federal e a Polícia Técnico-Científica de São Paulo. Ela foi desenvolvida no Projeto Araceli, coordenado por Sandra Ávila, financiado pela Fapesp (2023/12086-9), em colaboração com o Projeto Horus, vinculados ao Recod.ai, no Instituto de Computação da UNICAMP.
Ele detecta padrões de abuso e violência sexual em material concedido pelas autoridades. Isso ocorre por meio de representações em grafos que são abstrações estruturais da imagem, mas que preservam informações para refinar a IA. O modelo identifica objetos, poses, interações físicas e relações espaciais para uma análise contextual. A decisão sobre a correspondência dos dados com a violência é tomada pelos peritos treinados.
Essa tecnologia representa um avanço crucial para a ciência e a sociedade. Isso se deve ao fato de que ela não utiliza materiais ilegais, preserva a privacidade das vítimas e protege pesquisadores da exposição a conteúdos sensíveis. Além disso, contribui diretamente para o combate a crimes dessa natureza e fortalece a aplicação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025).
A campanha “Quebre o ciclo da violência“, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, concede orientações e materiais para o enfrentamento da violência sexual contra o público infantojuvenil. Disque 100 para denúncias por telefone, disponível 24 horas por dia. Pela internet, as denúncias podem ser feitas no site da Ouvidoria, pelo WhatsApp (61) 99611-0100 ou Telegram. O serviço também dispõe de atendimento na Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Saiba mais:
- Projeto Araceli;
- Workshop do Projeto Araceli discute segurança infantil na internet com especialistas em IA;
- Recod.ai colabora com o STF em iniciativas de Segurança Digital Infantojuvenil.
Material produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil (Processo nº 2025/26523-7), vinculado ao Projeto Horus do Recod.ai (Processo nº 23/12865-8).