A+ A- Acessibilidade
Buscar

Contribuições femininas para o avanço da Inteligência Artificial

Por Juliana Vicentini

No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, pesquisadoras do Recod.ai compartilham suas trajetórias, pesquisas e impactos sociais.

A data foi implementada pela Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no ano de 2015. Comemorado anualmente em 11 de fevereiro, a celebração tem “como objetivo fomentar o papel de mulheres e meninas na ciência”, esclarece a UNESCO.

Esse dia comemorativo nos convida a refletir sobre as desigualdades estruturais que persistem na ciência. Também é uma oportunidade para valorizar a contribuição fundamental que as mulheres possuem para o avanço do conhecimento, papel este muitas vezes invisibilizado ao longo da história.

Não são poucas as mulheres que foram deslegitimadas na ciência. Dentre elas, destacamos Hipátia de Alexandria (ano 355 d.C) que foi pioneira na matemática, era filósofa e astrônoma. Vivendo em um contexto masculino, ela foi perseguida e assassinada por seu pensamento não endossar princípios religiosos e políticos da época. Isso resultou no apagamento de sua obra.

Entre os campos em que desigualdades de gênero se manifestam de forma mais evidente está a IA. Registros apontam que ela surgiu na década de 50, em uma conferência da Dartmouth College, nos EUA. Na ocasião, pesquisadores passaram a se perguntar se as máquinas poderiam imitar o comportamento humano. Naquele contexto, John McCarthy (1927-2011) cunhou o termo Inteligência Artificial (IA), definindo-o como a ciência que produz máquinas inteligentes.

No entanto, muito antes disso, uma mulher teve papel fundamental para o campo da IA. Ada Lovelace (1815-1852), matemática inglesa, é considerada a primeira programadora da história. Ela ficou conhecida por prever o surgimento da IA ao perceber que máquinas poderiam manipular símbolos – não apenas números – e gerar música, imagens e texto quando devidamente programadas.

Hoje a IA funciona como Lovelace previu. É uma das áreas mais estratégicas da ciência, pois cria sistemas que simulam habilidades humanas, como aprendizado, reconhecimento de padrões, tomada de decisões e resolução de problemas.

A partir de dados e algoritmos, essa linha de pesquisa tem sido utilizada para apoiar a tomada de decisões, otimizar processos e ampliar o acesso a soluções inovadoras. Hoje a IA é aliada em diversos segmentos, como educação, saúde, economia, mercado de trabalho, transporte, políticas públicas e relações sociais.

Mulheres na IA

Apesar dos avanços tecnológicos, a participação feminina, tanto na pesquisa quanto no desenvolvimento de tecnologias de IA, ainda é desigual. Isso influencia o tipo de tecnologia que é desenvolvida, os vieses incorporados aos sistemas e as populações que acabam sendo invisibilizadas por soluções automatizadas.

No Brasil, mulheres são autoras de 30% de dissertações e teses em IA, aponta artigo publicado na Biblionline em 2024. No campo do reconhecimento notável em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), dos 589 prêmios Nobel concedidos nessas áreas, apenas 17 foram para mulheres, segundo a UNESCO.

No contexto mundial, o público feminino ocupa 22% dos empregos em STEM nos países do G20, conforme outro relatório da organização. Isso evidencia uma sub-representação persistente em áreas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico, que vai além do contexto científico.

Trajetórias inspiradoras

Apesar dos dados que evidenciam a desigualdade de gênero na área, há trajetórias femininas que devem ser compartilhadas. Isso pode inspirar meninas e jovens a fazerem parte do universo científico em IA. Cada pesquisadora possui uma história diferente que as levou para essa área de pesquisa.

“Fiz algumas matérias sobre o assunto no meu último ano de graduação e achei interessante. Eu não estava cogitando seguir na área de IA porque estava mais envolvida com criptografia. Quando decidi pelo doutorado, a IA começou a me atrair mais, especialmente com a popularização do ChatGPT e do Gemini”, conta Ana Clara Serpa, doutoranda no Recod.ai.

A aproximação com a IA surgiu “de forma natural, a partir de suas implicações na produção de conteúdo e (des)informação. Comecei a ter contato quando eu estava fazendo meu doutorado na Austrália. Lá, a discussão sobre o tema estava ocorrendo de forma mais acelerada. Ao retornar ao Brasil, percebi que o assunto ainda era incipiente nas ciências humanas e sociais, e notei que poderia ser um nicho importante”, diz Ana Carolina Monari, pós-doutoranda no laboratório de IA da Unicamp.

Diversidade de linhas de pesquisa

As pesquisadoras em IA atuam em diversas frentes de investigação interdisciplinar para superar desafios complexos na sociedade. Atualmente, elas colaboram com o projeto Horus que identifica e previne realidades sintéticas, vinculado ao Recod.ai. “Me dedico a compreender como as pessoas consomem, recebem e circulam conteúdos produzidos com IA”, explica Monari.

Isso é importante para “pensarmos em aplicações que visam combater a desinformação, pois conteúdos falsos podem trazer riscos às pessoas e à democracia. No futuro, a pesquisa poderá ser um meio para o desenvolvimento de políticas públicas e para a construção de formações para profissionais das áreas da comunicação e educação”, conta a pesquisadora.

Já Serpa busca entender como prevenir o mau uso de LLMs (Grandes Modelos de Linguagem). “Por exemplo, pesquiso como prevenir o uso destes modelos para gerar conteúdo pornográfico, ou instruções para atividades ilegais”, explica a doutoranda.

Investigações que contribuem para a inclusão e qualidade de vida também integram o circuito da IA. “Trabalho com tecnologias assistivas que ampliam a autonomia de Pessoas com Deficiência”, diz Emely Silva, pós-doutoranda e coordenadora do projeto Viva Bem do Recod.ai.

Gênero e ciência

A desigualdade da presença feminina na ciência em IA tem implicações. Cientifica e eticamente, “há a questão dos vieses algorítmicos pois a IA é treinada com dados históricos que podem conter aspectos sexistas. Para minimizar isso, poderíamos pensar em auditorias de viés”, pontua Monari.

Do ponto de vista social, “várias pesquisadoras relataram que há poucas mulheres com quem interagir, o que as deixaria mais à vontade se houvesse outras mulheres para fazer amizade. Elas também apontam diferenças nas expectativas de comportamento entre homens e mulheres”, observa Serpa.

“Também acredito que possa existir uma barreira relacionada ao perfil psicológico. Eu já vi, também, relatos na área da computação sobre mulheres se sentirem menos confiantes que homens na hora de aplicar para vagas de emprego”, comenta a doutoranda.

Futuras pesquisadoras

Incentivar meninas a se tornarem pesquisadoras é fundamental para construir uma ciência mais diversa e criativa. É preciso criar “programas, políticas públicas e ações de inclusão e incentivo de carreiras no setor de tecnologia para mulheres negras, com algum tipo de deficiência e com filhos” sugere Monari.

“Seria muito importante mostrar aplicações positivas da IA e, como de fato, funciona. Atualmente, esse tem sido um assunto polêmico, pois muitas pessoas manifestam entusiasmo, mas outras preocupação. Isso pode induzir algumas pessoas a manterem distância da área”, destaca Serpa.

As pesquisadoras compartilham conselhos para estimular jovens a serem cientistas, destacando a importância da curiosidade, da persistência diante dos desafios e da confiança no próprio potencial, especialmente em áreas historicamente marcadas pela desigualdade de gênero, como a IA.

“Eu diria para seguir em frente. Estudem, sejam curiosas e não deixem de explorar todas as possibilidades que o mundo pode te oferecer. E, por fim, não dê ouvidos para aqueles que digam que vocês não são boas suficientes. Vocês são boas! Lembrem-se sempre disso”, enfatiza Ana Monari.

“Haverá dias em que os dados não farão sentido ou que você se sentirá intimidada. Lembre-se: sua capacidade não tem limites”, compartilha Silva. “Sejam curiosas, não deixem outras pessoas te desencorajarem, do que vocês gostam ou acreditam que é certo. Estudem bastante”, diz Serpa.